Conhecendo os Tardígrados

tardigrado

[FOTO: FLICKR/KATEXIC PUBLICATIONS]

Responda rapidamente: você sabe dizer qual é o animal mais resistente do mundo?

Se você pensou em baratas, deu um bom chute. As baratas, fonte de terror para muitos, vivem na terra a 325 milhões de anos.

Sobreviventes da grande extinção que eliminou os dinossauros da terra, esses artrópodes por muito tempo ganharam a fama de resistirem à radiação nuclear, o que se comprovou um mito.

Se para as baratas a sobrevivência a radiação não foi comprovada, para o protagonista do nosso artigo sim.

Tardígrados, os animais mais resistentes do mundo

Imagine existir um animal que consiga sobreviver a temperaturas extremas, a radiação e até mesmo ao vácuo do espaço.

Imagine que esse animal vive no planeta terra há mais de 500 milhões de anos e sobreviveu às cinco grandes extinções em massa que se abateram sobre o planeta.

Imagine que existem mais de 100 espécies desse animal que podem ser encontradas em todos os cantos de nosso planeta. Das florestas tropicais, grandes geleiras ao oceano profundo.

Imaginou?

Muito prazer: Tardígrado

Descritos a primeira vez em 1773 pelo pastor Johann August Ephraim Goeze, os tardígrados e seu filo foram reconhecidos e categorizados apenas 3 anos depois, por obra do italiano Lazzaro Spallanzani, padre, fisiologista e estudioso das ciências naturais.

Se você está se perguntando como um animal desses não foi avistado e catalogado antes, a resposta é muito simples: os tardígrados são seres microscópicos.

A maioria das espécies pertencentes ao filo medem entre 0,3 a 0,5mm, sendo que a maior delas pode atingir 1,2mm.

Spallanzani observava sedimentos restantes da calha da chuva quando, ao adicionar água, avistou em seu microscópio pequenas criaturas com aparência de urso.

É daí também que vem o nome popular pelo qual essas pequenas criaturas são conhecidas: ursos d’água

Seus corpos em formato cilíndrico possuem quatro pares de pernas sem articulação, oito patas com garras. Sua boca tubular possui dois estiletes que são utilizados para perfurar células de plantas, algas ou pequenos invertebrados.

Anatomia Básica de um Tárdigrado

[FOTO: HYPEVERDE]

Embora seu intestino ocupe a maior parte de seu comprimento, algumas espécies defecam apenas quando realizam a troca de pele.

Por não possuir órgãos respiratórios, a troca de gases com o ambiente ocorre em toda extensão de seu corpo.

Seu sistema nervoso é composto por um cérebro com múltiplos lóbulos ligados a um gânglio abaixo do esôfago, de onde sai um cordão nervoso ventral que percorre o comprimento do corpo.

Quando tamanho não é documento

Para muito além da aparência, ou das especificidades de sua anatomia, as espécies do filo Tardígrada impressionam por sua característica única entre os seres vivos.

Quando retirado de seu habitat natural, a água, o animal se encolhe e se desidrata completamente, entrando em um estado de hibernação chamado criptobiose.

A Criptobiose é um estado de latência que pode ser presenciado em alguns animais, quando se encontram em condições adversas (temperaturas extremas, baixa umidade, entre outros). No estado criptobiótico, todos os procedimentos metabólicos param. Um organismo em tal estado pode viver indefinidamente até que as condições ambientais voltem à normalidade.

É através da criptobiose que os tardígrados conseguem sobreviver a condições extremas, suportando temperaturas que vão de -273,15°C a 150°C. Estudos de 1995 mostraram que o animal é capaz de sobreviver por 8 anos nesse estado de hibernação.

Apenas esse fato seria impressionante, porém foi uma experiência realizada em 2007 que mostrou todo o potencial da criatura e a confirmou como a mais resistente do mundo.

Cientistas da Agência Espacial Europeia enviaram centenas de exemplares de duas espécies de tardígrados ao espaço para descobrir como os animais reagiriam ao vácuo.

O resultado?

Mesmo exposto ao vácuo e a radiação solar, quase metade dos espécimes enviados voltaram a terra com vida!

Sim! Os tardígrados foram capazes de sobreviver a um ambiente que até então parecia inabitável a qualquer ser vivo: o espaço.

Embora a história evolucionária do animal comprove sua origem terrestre, para astrobiólogos, a capacidade apresentada pelo filo, de sobrevivência a condições extremas para a vida, são um forte indicativo que podem haver outros organismos com a mesma capacidade no cosmos.

Há inclusive cientistas que indiquem que os tardígrados poderiam vir a ser os primeiros colonizadores terráqueos em Marte, aproveitando da existência de água no local.

Comprovando que tamanho não é documento, esses animais extraordinários vem sendo objeto de diversos estudos, que buscam entender melhor a criptobiose.

Curiosidades sobre os tardígrados

Quer saber mais sobre esses animais extraordinários? Confira abaixo algumas curiosidades relacionadas a essas simpáticas criaturas.

A proteína que protege:

A criptobiose dos tardígrados é conhecida há tempos. Em setembro de 2016, porém, cientistas japoneses revelaram uma descoberta reveladora: a existência de uma proteína que protege o DNA do animal.

Antes desse estudo, acreditava-se que os ursos d’água sobreviviam à radiação por terem a capacidade de recuperar danos causados ao seu código genético.

A parte mais impressionante da pesquisa, contudo, foi à reprodução da proteína em células humanas. O resultado? Ela também protegia as células, em especial da radiação.

Do vácuo a alta pressão:

Embora a capacidade de resistência a extremos de temperatura impressione, quando falamos de resistência à pressão o animal também se destaca.

As espécies do filo Tardigrada são capazes tanto de sobreviver ao vácuo do espaço quanto a condições de pressão de 1200 atmosferas. Algumas espécies superam essa barreira de longe, suportando uma pressão seis vezes maior que a pressão da água encontrada nas Fossas Marianas, a mais profunda fenda oceânica da Terra.

Vocação para colonizadores:

Os tardígrados comumente são os primeiros animais a colonizar ambientes extremos e rigorosos.

Quando um vulcão entra em erupção, a lava varre todo o ecossistema por onde passa. Após esse acontecimento os tardígrados são os primeiros animais multicelulares a ocuparem a área.

Sua alimentação? Os micróbios que vivem por ali.

Filo do DNA exógeno:

Estudos de 2015 realizados por cientistas da Universidade da Carolina do Norte descobriram que cerca de 17,25% do DNA dos tardígrados é desconhecido do organismo deles.

Em comparação, a ampla maioria dos animais possuí apenas 1% de DNA exógeno (que têm origem fora do organismo) em seus genomas.

Acredita-se que isso ocorre através de um processo de transferência horizontal de genes, ocorrendo troca de material genético entre espécies.

Quando em criptobiose o DNA do tardígrado se quebra. Quando volta a ser hidratado a membrana e o núcleo deste mesmo DNA fica esburacado e permite que outras moléculas passem pelos mesmos.

Ou seja: esse incrível animalzinho é capaz de consertar seu próprio DNA formando um mosaico com genes diferentes!

Habitando nosso planeta a mais de 500 milhões de anos e sobrevivendo a condições extremas, os tardígrados são a prova viva do quão incrível é o processo evolucionário.

Compreender essas fantásticas criaturas e seu funcionamento pode ser a chave que nos falta para que no futuro tenhamos capacidade de ir muito além no espaço.

E você? O que achou dos pequenos campeões da resistência? Deixe um comentário e continue acompanhando nosso site e descubra mais sobre esses incríveis seres vivos que habitam nosso planeta.

Até a próxima!

Referências [1][2][3][4][5][6][7]
Por HypeVerde

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