A Cidade do Futuro do Pretérito

Foto do Rio Tietê na cidade de São Paulo
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Uma reflexão sobre a poluição do Rio Tietê

Antes um berço de diversidade natural, o município de São Paulo atualmente se deita sobre problemas ambientais que denominam a contradição do seu desenvolvimento, dentre os quais se destaca o Rio Tietê.

O seu curso nasce na cidade de Salesópolis, atravessa todo o estado e deságua no Rio Paraná, no município de Itapura. No trecho em que percorre a região metropolitana, a sua correnteza deixa de carregar as águas límpidas que traz do interior. Sem demora, ela passa a servir de espelho d’água para o lugar onde vivo, refletindo em sua superfície os malefícios que envolveram a conquista do predicado de maior centro de negócios do país.

Ocorre que o rio não nasceu absorto em poluição. No passado, índios tupi-guarani ocuparam as suas várzeas, canoeiros sustentaram-se da pesca nas suas águas, imigrantes extraíram do seu solo matérias-primas e senhores de engenho plantaram nas suas margens. No entanto, com o passar do tempo, a sua importância histórico ambiental para a Grande São Paulo e, consequentemente, para aqueles que se encontram na qualidade de moradores da região, foi desconsiderada. Dessa forma, da mesma maneira que a distância entre o cidadão e a referência do rio como um patrimônio natural, a sua degradação só fez aumentar.

Nesse cenário de esgotamento, uma pesquisa orientada pela SOS Mata Atlântica constatou que 11% da extensão do Rio Tietê acha-se em péssimas condições de conservação. Além disso, os especialistas alertaram para as dificuldades do seu processo de despoluição, bastando ver que não é suficiente recuperar os trechos que se encontram comprometidos, mas também deixar de degradá-los.

Apesar disso, a incorporação dessa responsabilidade ambiental à cidade não se apresenta de maneira simples a considerar o paradigma da modernização de São Paulo, representado na sua bandeira pelo bordão “Não sou conduzida, conduzo” – uma sentença que compreende em suas poucas palavras o progresso humano que deu-se às custas do regresso ambiental paulistano.

Assim sendo, partindo de um panorama histórico mais recente, as direções sugeridas pelo brasão da cidade se mostraram demasiado imprudentes.

Na década de 20, foram abertas obras públicas à margem do Rio Tietê para acompanhar a demanda da crescente indústria automobilística da época. Sem tardar, essas transformações contribuíram para o afastamento das atividades turístico ambientais que aconteciam nos arredores, diminuindo drasticamente o número de visitações. Desse modo, o descarte de resíduos industriais e domésticos nas imediações do rio tornou-se costumeiro e, aos poucos, corrompeu o trecho que atravessava a cidade de São Paulo, carregando consigo os descuidos de diversos responsáveis.

Nessas condições, o envolvimento histórico do governo, da indústria e da sociedade na degradação das águas do Rio Tietê é certo, e o que denomina a grande problemática do assunto é a propensão dessas instâncias em tentar se eximir dessa responsabilidade, incriminando umas às outras.

Não obstante, as discussões assentadas em quem são ou deixam de ser os responsáveis pelo processo de deterioração do rio tem apenas contribuído para a demora na sua recuperação. Porém, de que adianta achar o culpado se o problema continua sem ser resolvido?

Baseado nesta pergunta, considero que, se por um lado a variedade de agentes poluidores nomeia um grande problema, por outro ela pode significar a solução para a situação do rio, visto que da mesma maneira que a sua poluição remonta a tantos responsáveis, a despoluição também pode remeter a todos eles.

Nesse sentido, não basta cobrar do governo um posicionamento, é necessário também reconhecer a participação de nós, cidadãos, na degradação e passar a acomodar as nossas atitudes no sentido de revertê-la. Afinal, a recuperação do Rio Tietê é uma responsabilidade coletiva.

Por todos esses motivos, acredito que é a partir da concentração de esforços em proveito do meio ambiente que a Grande São Paulo deixará de ser uma cidade do futuro do pretérito que poderia ter acontecido em uma situação passada, e se tornará a expressão do presente, garantindo, assim, o seu próprio futuro.

Por Otaviano Cavalcante da Silva Junior, Estudante do 3º ano médio e do curso Técnico em Administração da Escola Técnica Estadual de São Paulo (ETEC) “Irmã Agostina”.